Primeiro Capítulo - continuação

                                                Mulheres da Idade Média na lavoura

 Passando à Idade Média, precisamente no Oriente Médio, surge uma figura emblemática com diversos talentos e habilidades, Avicena. Médico e filósofo, falava do poder de cura da lavanda em suas obras: “Cânone da Medicina” e “O Livro da Cura”. Sendo que o “Cânone da Medicina” foi uma obra usada por séculos em universidades européias. Suas obras, como um todo, tornam-se referência para tratamentos de saúde e são utilizadas por diferentes culturas. Este homem notável ainda estaria irremediavelmente ligado aos óleos essenciais e suas aplicações, pelo fato de ter dominado o processo de destilação, criando o alambique. Aproximadamente quinhentos anos antes, um médico bizantino, Aetius de Amida, já teria conseguido destilar substâncias, mas foi Avicena com a criação do alambique, tal qual o conhecemos, que é considerado o inventor do objeto que permitiu a captação de óleos essenciais usados nos cuidados com a saúde e na perfumaria.


 A disseminação dos óleos essenciais aromáticos se deu de forma pulverizada, sempre conduzida pelas trocas comerciais entre os povos, processos de colonização,  aculturação, onde hábitos e saberes se misturam formando um mosaico de referências. na idade Média a perfumaria ficou de certa forma estacionada, porque o corpo era objeto de recusa, não era adequado dar muita atenção às sensações, aos prazeres. Nesta época sombria sob vários aspectos, os mosteiros detinham a pesquisa e a produção das ervas aromáticas, matéria prima primordial na farmácia e na perfumaria. Nesta ocasião, as propriedades terapêuticas do óleos essenciais provenientes de ervas, frutas e flores, tornarem-se mais conhecidas, e sobretudo a descoberta do álcool foi fundamental para aquisição de hábitos de higiene, e especificamente para perfumaria.
A peste assombrou a Europa durante séculos, e era comum utilizar extratos alcoólicos com ervas como o alecrim e a lavanda, que eram ingeridos. Havia o hábito de amarrar aos pulsos, ramos de lavanda, que acreditava-se que afastaria a peste. Como se vê, a lavanda era uma das plantas protagonistas no uso diário, mantendo uma prática iniciada séculos antes.  Mas banho era evitado, o que só piorava a situação já calamitosa das populações européias. O fator determinante no agravamento da peste bulbônica era a água, acreditava-se que ela era um veículo de disseminação das doenças, o que tornava os banhos ainda mais proibitivos. À época não se poderia supor que o vetor era a pulga dos ratos, que enfestavam várias cidades. A higiene de um modo geral era precaríssima, principalmente em locais de clima muito frio e moradias muito desprotegidas. O conceito grego de uma mente sã num corpo são havia sido substituído por medos e pecados a serem evitados. A igreja disseminava que o paraíso não era a terra, definitivamente. Mesmo assim, as destilarias se desenvolviam e eram responsáveis pela variedade da extração de óleos aromáticos.


 Podemos imaginar que o uso extenso da lavanda tenha chegado à Inglaterra através dos romanos, quando estes a dominaram por um período, e que os espanhóis tenham compartilhado seu uso por conta da influência árabe. Mas na Europa da Idade Média quem se destacava no cultivo e estudava as aplicações da lavanda eram os monges, como já mencionamos. A cultura da lavanda como até hoje podemos observar na França, é parte integrante da produção de mosteiros, sobretudo beneditinos, uma tradição de séculos e muito valorizada.  Relatos médicos falam da proteção que a lavanda oferecia contra a peste bubônica, mas também contra a tuberculose, que na época matava um grande número de pessoas. Suas propriedades antissépticas e fortalecedoras do sistema imunológico, embora conhecidas na prática, só seriam detalhadas mais tarde com o desenvolvimento da química.
    A França não obteve a fama de produzir os melhores perfumes do mundo à toa. Grasse, uma cidade ao sul do país, era e ainda é um jardim imenso a céu aberto, com clima e solos perfeitos para o cultivo de flores. A lavanda desta área será para sempre cultuada como a melhor do mundo, principalmente a selvagem que cresce nas partes mais altas. O óleo essencial de lavanda largamente utilizado virá principalmente desta região e se espalhará pelos continentes. Além dela, frutas e flores provenientes de outros países cresciam facilmente no sul da França. A mistura de lavanda e rosa e os cítricos ganhavam cada vez mais espaço nas fórmulas de colônias. os franceses começavam a exportar um modo de vida irremediavelmente ligado aos aromas. A sofisticação é crescente e acompanha a mudança de hábitos que começa a se desenhar.

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